segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

Miragem astral


Descalça, na pureza original
Erguer-me-ei do mar para fruir
da essência geradora, natural,
embriagante como um elixir.
Serei, pois, a ninfa, sem a qual
as águas não chegam a fluir
nascida da semente intemporal
em cada madrugada hei-de surgir

Hei-de ser a planície ou a montanha,
das praias e desertos, as areias,
canção do mar, suave, mas estranha
composta apenas com semicolcheias
Das florestas, serei doce segredo                        
riacho que por elas serpenteia
estátua arrancada a um penedo
ou pássaro enamorado que gorjeia

Deste reino encantado serei rainha.
Nas madrugadas d’amor hei-de florir
E cada manhã será só minha
quando o vento a sua voz abrir
E serei o fauno que vive na floresta
ou a ninfa que dele foge a sorrir
e todo o meu ser estará em festa
quando,  meu amor, puder sentir

a força dos deuses e dos mundos
a pulsar com vigor em cada veia,
e com gestos eternos e profundos
fazer de um rochedo, uma sereia.
E será só minha a paisagem
quando o luar, que a noite clareia,
transformar p’ra sempre em miragem
todas as sombras onde a dor campeia


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