quarta-feira, 18 de abril de 2012

Monólogo - F. Pessoa

Subi vagarosamente a rua Garrett e, ao chegar ao largo do Chiado, detive-me em frente d’A Brasileira. Olhei para o meu amigo Pessoa, ali sentado, indiferente às pessoas que passavam e sentei-me também, para desfrutar um pouco da sua companhia.
Enquanto me ponho a bebericar um saboroso café, sentindo a mesma placidez e indiferença do meu companheiro, deixo as ideias escorrerem devagar, num monólogo mudo: “Não sei quantas almas tenho”, disseste, num momento de superior divagação interior… Como eu gostaria de ter a tua insana lucidez, o teu olhar simples e arguto sobre as coisas, uma das tuas almas de poeta feita de filosofia profunda…( circunda-te de rosas, ama, bebe e cala. “O mais é nada” )
Reparaste meu poeta, quantos já passaram por ti, por nós, indiferentes, orgulhosos, risonhos, taciturnos? Alguns aproximaram-se apenas para levar na bagagem uma foto tua. E tu? Que ideias passaram pela tua cabeça? Eu fico cismando na nossa grandeza, feita de infinita pequenez … Pobre humanidade, tão orgulhosa das suas ideias, mas que ainda não conseguiu descobrir a razão da sua existência, nem sabe se ama com o coração ou com a cabeça…
A teu lado, sinto-me quase sem alma e no fundo do meu pensamento as ideias assemelham-se apenas a míseros fantasmas. De que me serve ter ideias, não me dirás? Surgem, desaparecem, esvaem-se como nuvens impelidas pelo vento. De onde vêm? Serão reais? As ideias existem se não derem origem a coisas? Não se vêem… não se sentem… ideias, são nada. Nem sei porque falaste delas…
Gostava que as ideias saíssem do pensamento e andassem pela rua, pelos campos, atravessassem o mar, o espaço… Assim, poderíamos vê-las e escolher as mais bonitas, as verdadeiras, as mais coloridas, as originais … e poderíamos construir pedestais para as colocar e mostra-las a todo o universo. As feias e negras, não! Essas iriam para uma caverna profunda e lá ficariam para que os homens não se envergonhassem delas. As outras, as que estivessem nos pedestais, ensinariam todos os seres a ter ideias.
Mas como não existem pedestais nem cavernas para colocar ideias, não sei o que fazer com as minhas.
Ah! Vou deixa-las voar. Talvez alguma se transforme numa nuvem muito branca, leve e pura, suba e fique lá no alto à espera que alguém a descubra e diga:
- Que nuvem tão bela! Parece um cavalinho branco!
E assim… nascerá mais uma ideia!
Irreal? Absurda? Infantil? Que importa meu amigo, é apenas uma ideia!!!

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