domingo, 19 de fevereiro de 2012

IN MEMORIAM

Num dia de final de Inverno, num jardim abandonado, subitamente, nasceu uma flor.
Quando abriu as pétalas para a luz já era linda e perfumada.
Deram-lhe o nome de amor-perfeito.
Foi amada, protegida, até idolatrada. Viveu entre beijos e carícias do vento brando e pensava lá muito em segredo: SOU ETERNA
Na primavera, resplandecente de fulgor, quando se comparava com as florzinhas modestas que conhecia, algumas das quais, de vida breve, já definhavam, assegurava: SOU ETERNA!
Surgiu o verão. E o lindo amor-perfeito começou a sentir sede. O sol, impiedoso, não lhe dava tréguas. Suplicava por uma gota de água, mas tão baixinho que ninguém o ouvia.
Já não o acariciavam, não lhe falavam, nem o regavam. O amor-perfeito não se conformava. O vento e o sol tinham-lhe dito que era especial, até lhe tinham chamado AMOR.
Quantas vezes, na solidão do seu jardim deserto, sonhou ouvir uma palavra amiga, de conforto, de esperança e de carinho. Mas a florzinha abria os olhos, olhava em redor e continuava irremediavelmente só. A sede queimava-lhe a garganta e de cada vez que tentava falar para pedir ajuda, sentia faltarem-lhe as forças. Já não conseguia manter as pétalas estendidas aos raios suaves do sol de Outono. O caule dobrava-se, as raízes tentavam ainda suster-lhe o peso… em vão.
Num dia cinzento de Outono a linda flor morreu. A sua última dádiva à vida foi o suave perfume que se desprendeu e se elevou no ar, quando ela, por fim, tombou inanimada.
Um perfume tão doce e intenso que encheu o jardim, expandiu-se por entre as árvores, inundou a terra e subiu, subiu, até ao infinito...
E é por isso que, desde então, todos os amores são perfumados!

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