sexta-feira, 7 de abril de 2017

A Bruxa

Toda a gente sabia que a “ti” Vicência era bruxa.

A ti Vicência tinha um gato preto. Só as bruxas têm gatos pretos, já se sabe!
O bichano era negro como o carvão, e bufava a quem se aproximasse da tronqueira do portão onde se esparramava nas tardes de sol. O Ti Francisco já lhe tinha sentido as garras num dia em que se aproximou demasiado, e a Mariana do ti Manel da Ponte também, quando o apanhou a jeito e, por pirraça, lhe puxou a cauda. Tanto num caso como noutro, as arranhadelas demoraram um rôr de tempo a cicatrizar, sinal de bruxedo, pois então…

A Ti Vicência também tinha um filho! Chamava-se Benjamim e era louro como os anjos que estão no altar da nossa igreja, mas a semelhança ficava por aí. Ninguém lhe conhecia o pai, aliás, ninguém, jamais, conhecera homem na vida da ti Vicência. Até havia quem afirmasse que o petiz era fruto de amores com forças ocultas, com quem os bruxos se envolvem em noites de lua cheia!

A mãe procurava não o perder de vista, mas o rapaz era “levado das felpas do diabo”. Apedrejava as mulheres que lavavam roupa na ribeira, matava os pintos nas capoeiras onde conseguia entrar, roubava fruta e hortaliças das hortas, e atormentava os porcos nos chiqueiros, espetando-os com paus, de tal forma que os pobres bichos deixavam de comer com o susto, e muitos não engordavam o bastante para a matança no Natal.

Quase toda a gente temia a ti Vicência. Era voz corrente que ela podia causar grandes males só com o olhar…

Uma vez, estava o Benjamim de novo a fazer tropelias pelas ruelas e canadas do lugar, (prenúncio do bruxo em que haveria de se transformar um dia),  quando um grupo de respeitáveis chefes de família se juntou, a pedido de vários moradores que já haviam sido vítimas do diabrete, e apanharam-no na volta do caminho a apedrejar a janela da ti Glorinha dos Anjos, uma santa mulher, devota de Nossa Senhora da Conceição, padroeira da nossa vila.
Os homens de bem da freguesia deram umas "nalgadas" valentes no rabiosque do Benjamim e “pregaram-lhe um sermão” sobre as boas maneiras e o respeito pelos bens alheios.
O Benjamim que, por ser ainda imberbe, não dominava as artes da bruxaria, foi a correr contar à mãe. Ela confortou-o, prometendo em grandes brados que ele seria vingado.

E foi! No dia seguinte, para espanto e consternação geral, todos os que haviam participado na reprimenda ao Benjamim, acordaram tosquiados: as venerandas barbas e cabelos que lhes conferiam o ar respeitável que naquele tempo era cultivado com empenho, tinham desaparecido.
A notícia correu pela freguesia como rastilho de pólvora! Para quase todos os habitantes do lugar já não subsistiam quaisquer dúvidas sobre os poderes da bruxa.

Numa certa manhã aconteceu algo que só veio reforçar o medo que todos tinham da velha Vicência. O povoado ficou em polvorosa. A ti Maria da Travessa soube do acontecido quando ia a caminho do moinho. Benzeu-se e mudou de atalho, para não correr o risco de ter algum encontro maléfico.  Desceu a ladeira que leva à corredoura junto da ribeira e deparou-se com a Guida do ti Francisco, moça desempoeirada, que, cheia de energia,  batia a roupa na pedra do lavadouro da ribeira.

- Olá pequena. Estou com a minha alma aos pés com o que me disseram “ind’agora”…Sabes que ontem a bruxa quis atravessar a ponte que estão a construir ali em baixo sobre a ribeira,  e os trabalhadores não deixaram? – perguntou.

- Credo, ti Maria, e eles tiveram coragem? – respondeu a Guida soltando uma alegre gargalhada.
A Guida era talvez uma das poucas pessoas da freguesia que não acreditava nos poderes maléficos da bruxa.

- Não rias menina, não sabes o que aconteceu esta noite.

- Conte lá, ti Maria, conte lá - disse a Guida continuando a esfregar a roupa, com todo o vigor dos seus 19 anos.

- A Vicência queria passar com o carro de bois carregado de pedra para a construção do palheiro, sobre "o esqueleto" (1)  da ponte, que certamente não aguentaria com tanto peso. Claro que eles não deixaram, mas a bruxa jurou que a pedra passaria de qualquer maneira.

 - E já passou, ti Maria?  Querem ver que passou voando na vassoura dela? – perguntou a Guida, rindo com vontade.

- Pois não te rias menina, que esta manhã a pedra estava toda do lado de cá da ponte… só pode ter sido obra do mafarrico. Deus nos acuda, que ele anda à solta por aí… - e a Ti Maria fazia o sinal da cruz com a maior consternação.

- Ora, que mistério há nisso ti Maria? Alguém ajudou a ti Vicência, certamente.

- Ai!  Ajudou, ajudou, e aí é que está a desgraça…

- Já sabem quem foi? – perguntou a Guida torcendo a camisa lavada e sacudindo-a com tamanha energia para a libertar do excesso de água, que os seios quase lhe saltavam pelo amplo decote da blusa de chita.

 - Foram os homens que ontem a proibiram de passar. Todos acordaram hoje tão moídos de cansaço que quase não se aguentam de pé.  

- Ora, ti Maria, crendices. Se ontem os homens trabalharam deveras, é natural que estejam cansados hoje. A ti Vicência deve ter pedido a alguém que lhe fizesse esse favor durante a noite, para todos ficarem com medo e a deixarem sossegada. Apenas se aproveita da ignorância dos outros. É uma pobre mulher, sozinha com um filho para criar, sem a protecção de ninguém.

- A menina é doida?? A bruxa enfeitiçou-os e obrigou-os a carregar toda a pedra, isso é coisa certa. Quem já viu os rapazes diz que eles estão completamente de rastos. Não se aguentam de pé… Todos! Isso é lá coisa natural?  "Nanja", não senhora, que eles têm trabalhado lá todos os dias e só hoje amanheceram assim. Toda a gente está aterrorizada. Já imaginaste menina, o que ela, querendo, é capaz de fazer à gente???

- Não sei, nem imagino, mas não me ajudará a lavar a roupa, certamente – respondeu a Guida rindo.

- Depois não te queixes, menina! Depois não te queixes! Vais ficar aqui sozinha? Nossa Senhora nos proteja! Adeus, que vou buscar a "moenda", quero cozer pão esta tarde. Deixei já o fermento reformado, ficou a levedar. Adeus.

- Vá com Deus, ti Maria. Mais logo passo em sua casa para comer uma fatia de pão quentinho… até logo.

A ti Maria ergueu a mão em despedida e lá foi pelo carreiro, cosida com as paredes, rezando para não encontrar pelo caminho a velha Vicência ou o seu querido Benjamim.

- Pai nosso que estás nos céus…


A ponte,  ainda em construção

Capítulo II

O Pedro de Mestre Joaquim era um moço de 20 anos, robusto, de trato fácil, possuidor de belos olhos azuis e cabelos louros, caso raro na freguesia. Ficara órfão ainda em criança. O pai, pescador e baleeiro, desaparecera para sempre no “pego do mar”, numa daquelas noites de tempestade que nos leva tudo, até a alma. A mãe, morrera pouco tempo depois, vítima da febre que grassara pela ilha e a muitos levara, grandes e pequenos.

O Pedro fora criado pelo avô, Mestre Joaquim, viúvo, sapateiro de profissão. E dos bons! Botas ou botins que lhe caíssem nas mãos eram devolvidos ao dono como novos. Mas não era mister que rendesse o bastante para sustentar uma casa, num tempo em que a maioria andava de pé no chão. Apenas os “senhores da vila” e algumas famílias de lavradores mais abastados, os usavam.

Mestre Joaquim tinha orgulho no ofício e encaminhou o neto na sua arte. Passados alguns anos, o rapaz já era um ás a manobrar a trinchete e a sovela, aplicando umas gáspeas ou meias-solas melhor do que o avô. Mestre Joaquim também era um “homem esperto” e deitava a mão a todos os truques que lhe pudessem render alguns patacos mais.

Vejamos um exemplo da esperteza do homem:

Na ilha, quase todos tinham um pedacito de terra para o cultivo das miudezas para casa, um curral com um porquinho para matar pelo Natal, e uma meia dúzia de galinhas que pudessem prover alguns ovos e uns frangos de vez em quando.
Mestre Joaquim não era excepção, e como tinha um chiqueiro no pequeno quintal anexo à oficina de sapateiro, resolveu usar os parcos proventos do ofício para comprar uma porca e usa-la para reprodução em vez de, em chegando o Natal, a meter na salgadeira. O produto da venda dos bacorinhos sempre acrescentaria algumas preciosas moedas ao quase miserável orçamento familiar.

Decorria o inverno quando os bichos nasceram, e logo mestre Joaquim, ansioso para recuperar o investimento, começou a anunciar que tinha bácoros para vender.  Rapidamente apareceu o primeiro interessado que, ao ver os bichinhos, os achou um pouco raquíticos.

 - Que idade tem os animais, mestre Joaquim?
 - Ainda não tem bem dois meses…
 - São muito pequenos...
 - Isto ainda é inverno, Ti João. Quando o tempo aquecer verá que eles dão um pulo…
Ti João, pouco convencido, lá comprou o porquinho e de regresso a casa encontrou o cunhado Manel, que ia a caminho das Escaleiras para ordenhar as vacas.
- Que levas aí debaixo do braço, João?
- É um bácoro que acabei de comprar a mestre Joaquim sapateiro, mas não sei se vai escapar, ele é tão “semeninos” (2) e com o frio que tem feito…
- O quê? Ele já “tá” a vender os porcos? Mas os bichos só têm 6 semanas, ainda não desmamaram… - indignou-se o Manel
- Tens a certeza disso?
- Então não tenho? Fui eu que lhe emprestei a lanterna na noite em que a porca teve os leitões…
- Mas que mentiroso!!! Acabou de me afirmar que… - começou a dizer o João, com o sangue a ferver de irritação, mas subitamente calou-se e desatou a rir com vontade.
- Ficaste tolo de repente? Que te deu? Não vais devolver o porco ao traste que te enganou?
- Não posso. Ele não me mentiu. Disse que os bichos ainda não tinham bem 2 meses… e de facto, seis semanas não são bem dois meses. Eu é que pensei que deviam faltar apenas 2 ou 3 dias… ah ah ah ah!!!!

E o João lá foi, com o porquinho debaixo do braço bem resguardado do frio. Chegado a casa, preparou-lhe a cama num cesto de vime forrado com palha e o pequenote foi alimentado a mamadeira pela mulher do João até poder ser transferido para o curral.(3) No Natal seguinte, o João e a Amélia mataram o maior porco das redondezas.  Nesse ano haveria carne e banha com fartura!

O Pedro, educado com tais exemplos, era o que se chama um verdadeiro “fura-vidas”. Nada lhe escapava.

Ora, quase ao lado da tenda do sapateiro havia uma pequena casa há muito desabitada. Porém, certo dia, a dita apareceu de porta e janelas abertas. Tinha chegado uma nova habitante à freguesia.

O Pedro não se cansava de admirar a Vicência, assim se chamava a nova vizinha do sapateiro, uma moçoila de perna bem torneada, seios fartos e ancas generosas. Como o trabalho na oficina era escasso, sobrava ao Pedro bastante tempo livre e ele não perdia pitada do que se passava no quintal da casa ao lado.

O entusiasmo foi aumentando e o rapaz já não se contentava em observar a Vicência durante o dia. Passou a vigiar os seus movimentos ao serão, enquanto a candeia de azeite de baleia se mantinha acesa em casa da rapariga.

Subindo a um bardo de “faia do norte” que existia em frente, Pedro ficava a admira-la enquanto lavava a loiça e arrumava a cozinha, mas perdia-a de vista quando a moça passava para o quarto e apagava a candeia, o que acontecia quase sempre pelas 10 horas da noite. Esta observação nocturna manteve-se até que chegou a noite de lua cheia.

O astro, enorme, redondo, deslizava num lindo céu sem nuvens, derramando a sua luz branca e etérea pelos telhados e quintais da freguesia.  Preocupado, não fosse a Vicência avista-lo empoleirado no bardo, o Pedro, nessa noite, ficou junto da parede do quintal, matutando numa forma segura de ver sem ser visto. O tempo foi passando e para desespero dele, a Vicência nessa noite prolongou o serão. O moço ouviu o relógio de parede bater as 11 horas e a luz trémula da candeia continuava a iluminar a janela da rapariga. Que estaria a danada a fazer? O rapaz não se conteve mais e deslizando sorrateiramente, cosido com a parede da casa, aproximou-se da janela do quarto e espreitou.

A cortina, já velha e poída, permitia vislumbrar o que se passava no interior. Siderado de espanto, viu a Vicência, completamente nua, besuntar-se com um unguento que se encontrava numa caixa negra. Quando terminou, apagou a candeia e logo em seguida o rapaz ouviu abrir-se a porta da casa. Só teve tempo de se agachar e viu-a sair voando, escarranchada numa vassoura, dizendo a meia voz:

- Por baixo de vinhedos e por cima de silvados, leva-me com todos os diabos.

E desapareceu!

O Pedro ficou algum tempo pregado ao chão, tremendo de susto. Logo que as pernas lho permitiram correu para casa, mas nessa noite não dormiu.

Duvidava do que os seus olhos tinham visto. Não podia ser!!! Talvez tivesse adormecido encostado à parede e tudo não passasse de um sonho…

Nããã… tinha visto, sim senhor! Que diabo era aquilo???  Teria a Vicência pacto com o mafarrico? Jesus, tinha de fugir dela a sete pés! Podia lá ser? Uma rapariga tão bonita!  Era de endoidecer!



Capítulo III


Sentado à banca da oficina, o Pedro passou o dia seguinte sem pegar no alicate, cortar um molde ou pregar os tacões nas botas que o Sr. Regedor tinha mandado entregar na véspera, com a recomendação de serviço rápido.
 Pelo meio-dia, o avô chamou-o para comer um caldo de couves temperado com um naco de toucinho. Atravessou a calçada, sem se atrever a olhar para o quintal da vizinha. Engoliu apenas duas colheradas e pôs-se a cismar, de olhos fixos num ponto indefinido do tabique do quarto.

O avô estranhou a inusitada falta de apetite do neto e tentou inquirir das razões:
- Antão nã comes, rapaz? Que tem o caldo? 
Nenhuma resposta.
- Já acabaste o conserto das botas do regedor? É um dos nossos melhores fregueses. Muito deve andejar pela vila aquele marau que tantas meias-solas gasta. Mas é bem bom p’rá gente… bem bom…
E enquanto falava, olhava de esguelha para o neto que continuava a não dar sinais de o ouvir.
- Ei moço, tu que tens? Tás como que pasmado, dói-te alguma coisa?
O mesmo silêncio.
Nova tentativa do avô:
- Ah! Hoje reparei qu’a galinha pedrês tá choca. É lua-cheia, vou botar uma dúzia de ovos debaixo dela. Descascam lá pr’ó crescente, teremos bons pintos.

À palavra lua-cheia o Pedro estremeceu, como se saísse de um sonho, e olhou para o avô de forma estranha.
- Lua-cheia… pois é… e ela voa.
Levantou-se e saiu sem dizer mais uma palavra.
- Ela, quem? A galinha? Que consumição - resmungava o avô, sentado num banco da cozinha - que terá aquele pequeno? Nunca o vi assim…


Quando anoiteceu o rapaz já tinha tomado uma decisão. Ia tirar aquilo a limpo. 

Por sorte, havia algumas nuvens nessa noite. Esperou que a luz da candeia mudasse e foi, sorrateiramente, espreitar pela janela. A cena da noite anterior repetiu-se e após a saída da Vicência, o rapaz não pensou duas vezes.

Esgueirou-se pela porta que ficara só no trinco, e penetrou no quarto da rapariga. Meio a tremer, despiu-se e esfregou-se todo com o mesmo unguento que a vira usar. Saltando para a vassoura que, de antemão, tinha ido buscar à oficina, exclamou:

-  Por baixo de vinhedos e por cima de silvados, leva-me com todos os diabos!

Quando se deu conta estava a voar por montes e vales por cima dos silvados e por baixo dos vinhedos, até chegar a um grande matagal no meio do qual havia uma clareira. Escondido atrás duma árvore, assistiu a uma cena que nunca poderia imaginar. Muitas mulheres e homens, completamente nus, dançavam e cantavam à volta de uma fogueira. De vez em quando baixavam-se, e à vez, davam um beijo nas nádegas do dançarino que os precedia.

E a dança continuou pela noite fora, tanto tempo que, ao Pedro, pareceu uma eternidade. Depois, montaram nas vassouras e repetindo a já conhecida frase, desapareceram voando.

O Pedro estava siderado!  Agora entendia tudo! A Vicência era bruxa!


Capítulo IV

Na noite seguinte, decidido a não perder pitada do que se passava no meio do mato, o Pedro apressou-se a besuntar-se e a seguir a bruxa. Mas desta vez levou na mão a sovela de sapateiro.

 Montou na vassoura, porém, com a pressa, enganou-se na frase, e disse:

Por cima de vinhedos e por baixo de silvados, leva-me com todos os diabos.

Foi um tormento! A vassoura levou-o por baixo dos silvados e ele chegou ao meio da mata com as costas todas arranhadas e ensanguentadas. Mas era destemido e estava decidido a fazer o que planeara. De maneira que não ficou apenas a ver, meteu-se na roda a cantar e a dançar como os demais. Nenhum dos dançarinos demonstrou qualquer estranheza e continuaram dançando. Apenas quando se baixaram para o cerimonial beijoqueiro, o Pedro, em vez de beijo, picou o parceiro da frente com a sovela. Então o dançarino picado voltou-se, e com olhar ameaçador exclamou: - Ai! Sapateiro tem barba aguda!

Tinha sido reconhecido! O que iria acontecer? Mas, surpreendentemente, ninguém mais demonstrou qualquer estranheza com a sua presença e a dança continuou pela madrugada, até terminar como na noite anterior. Apenas o regresso do Pedro foi diferente, com duas vassouras voando lado a lado, e nessa noite o Pedro não dormiu em casa...

Desde então o Pedro nunca mais foi o mesmo. Mal falava ao avô, pouco comia e quase não dormia. Magro, olheirento, já não era aquele mocetão alegre e feliz de outrora.  O pobre velho não atinava com o motivo daquela mudança, mas por mais que o inquirisse nada conseguiu descobrir.

Um dia, o Pedro recebeu uma carta com a guia de marcha para se apresentar no “castelo” em Angra do Heroísmo. Tinha de cumprir o serviço militar.

No “dia do vapor”, despediu-se do avô com um forte e prolongado abraço e lá abalou para Santa Cruz.  Era a sua primeira viagem, a primeira vez que saía da terra que o vira nascer.

O tempo passou! O Pedro nunca mais voltou à ilha. Jamais se soube o que aconteceu. Uns diziam que tinha morrido, outros que havia desaparecido misteriosamente. Ninguém sabia ao certo…

O velho avô esperou em vão uma carta do neto. Sozinho e doente, não aguentou o desgosto e faleceu poucos meses depois.

A Vicência também desapareceu repentinamente e durante muito tempo ninguém soube do seu paradeiro. Anos depois, reapareceu em Santa Cruz, já sem a beleza e o frescor de outrora, acompanhada de um garoto de belos olhos azuis e cabelos louros a quem ela amorosamente chamava de Benjamim!
 Como e porquê ninguém sabe, mas começou a correr de boca em boca o boato de que a mulher era bruxa e quase todos a temiam. Sendo ela feiticeira e não se lhe conhecendo homem, era evidente que o garoto só podia ser filho de algum bruxo ou talvez do próprio mafarrico!

Conta-se que ao longo dos anos, fazendo jus à sua fama, muitas foram as patifarias e artimanhas que preparou e executou com mestria, a maioria delas durante as noites de lua cheia. 

Não existe registo da sua morte nem do seu querido Benjamim! Há quem diga que ambos desapareceram, numa dessas noites em que os bruxos dançam nus em redor duma fogueira, entoando loas aos espíritos da noite.










 (1) Cofragem; estrutura em madeira que sustenta a pedra ou betão
         (2) Corruptela e diminutivo de somenos; enfezado; raquítico
(        (3) Pocilga





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